sábado, 12 de outubro de 2013

Um Conto de Réis

O olhar mortiço não era sua característica. Já fora viçoso, vigoroso e forte. Ânimo nunca lhe faltara. O início da vida pobre nos anos de Wenceslau Brás, como sempre se referia ao Presidente dos anos de juventude, forjaram sua personalidade forte e lutadora. Incrível como sabia de coisas dessa vida, mesmo sem conhecer uma letra do alfabeto.
As guerras geram efeitos que repercutem em mais de uma geração. No seu caso foram duas e cada uma delas o atingiu, em cheio, e deixou sequelas irreparáveis. A primeira, do início do século, legou-lhe o analfabetismo. Desde menino, depois jovem e sendo o filho mais velho, tinha que trabalhar muito para não morrer mendigando. Seu irmão mais novo, sempre o caçula, tivera melhor sorte e conseguira estudar. Quando veio a segunda, em nada diferente, transformou o país em terra de ninguém e as consequências avançaram pelo interior com maior dureza. Os jovens foram mandados para a Itália. Ficaram as mulheres, os arrimos de família, os espertos e os velhos. Era um tempo estranho, esse de guerra. Bastava um fazendeiro aparentar melhora e as ameaças vinham. Muitos foram assassinados porque não queriam vender barato suas as terras. Com medo os sobreviventes vendiam suas propriedades  e tudo que contivesse a quem aparecesse, ou era assim, ou seria a viúva a fazer a venda.
Ele se cuidava. Era corajoso, trabalhava na Caeira do Badeco, num canto do mundo paradoxalmente chamado de Sacramento. Extraía calcário e o partia em pedras, colocava no forno à lenha e queimava dois dias e duas noites sem parar e sem dormir, num calor escaldante, enquanto seus dedos feridos adormeciam. Quando não estava queimando cal, estava na roça de café. Dava algum dinheiro.
O bom Badeco era sujeito trabalhador, cheio de vida. Pagava certo e não atrasava. Pois não é que dois conhecidos matadores tiveram a ousadia de propor comprar-lhe a fazenda e os negócios? Era o sinal que preocupava. Badeco não vendeu e não acreditou que estivesse tratando com gente daquela laia, embora os avisos.  Pois foi morto quando voltava pra casa, ao fim de um dia de trabalho, de tocaia, sem que houvesse dúvidas sobre quem seriam os autores. Com a morte de Badeco, acabou a Caeira, acabou tudo. Cal era trabalho pesado, mas era trabalho, pelo menos havia algum. Agora tudo se acabara.
Ainda bem que tinha juntado um dinheirinho, uns poucos Contos de Réis. Sabia trabalhar e não tinha medo de cara-feia. Alguns vizinhos ficaram com mais medo ainda e puseram seus sítios à venda. O preço, por causa do medo, era barato.  Foi lá e comprou o sítio do Poço D’Antas. Terra boa, água, pasto...
Deu sorte. Os assassinos do Badeco foram presos pelo Tenente Coaraci, que veio da capital para isso, e foram levados para Niterói de onde nunca mais voltaram. De certa forma havia alguma paz na roça.
Ali começou tudo, lembra enquanto a enfermeira aplica uma injeção. Logo comprou um gadinho, alguns leitões, negocia daqui, negocia dali e foi tocando a vida. Tudo que ganhava guardava. Trabalhava muito, como sempre, já estava acostumado à luta.
O café não dava mais nada. Desde que começou o tal Estado Novo já se via pra onde iam as coisas. Muita gente arrancando pé de café e plantando capim. Boi era a nova ordem. Vem o Dutra, tempos de esperança, mas a coisa não muda muito.  Aliás, esperança mesmo só se o Getúlio voltasse. Esse era fazendeiro, sabia da luta e resolvia. Dutra não. Era tão nulo que a brincadeira dos meninos da escola era apresentar uma folha de caderno em branco e dizer, meio sem saber o que diziam: Está vendo aqui? São os decretos do Dutra.
E não é que o Getúlio voltou? A esperança veio com ele. Mas tinha também quem não gostasse. Gente ignorante. Falavam que era o grande responsável pela derrocada do café. Não sabiam de nada. Desde o Wenceslau que a coisa vinha mal. Os gringos é que diziam o preço para comprar barato.
Pois é, acabaram matando o Getúlio.
Ninguém o convencia de que fora suicídio. Ficava quieto pra não entrar em discussão. Discussão não dá dinheiro, dizia, com seu jeito grave de falar. Tem mais é que trabalhar. E não trabalhe pra ver.
Juntou mais um dinheiro vendendo leite, queijo, milho, porco e tudo que desse alguns réis. Até começou a emprestar para bom pagador. Não sabia escrever, mas era bom de conta de cabeça.
Juscelino era melhor que Getúlio. Movimentou o Brasil. O dinheiro começou a aumentar. Já tinha quase um conto de réis, cuidadosamente guardados debaixo do colchão.
O filho mais novo já podia estudar. Dizia que os outros não puderam porque não havia recurso, mas esse tinha jeito bom. Foi aí que comprou uma casa na rua. A rua era a mania de se dizer quando se saía da roça para ir à cidade. Foi pra lá com a mulher e o filho. Os outros seis já eram casados, se viravam.
Já fazia tempo que andava sentindo umas tonturas. Tinha muita sede. Foi ao médico. Dr. Raul examinou, bateu de leve no braço do amigo e decretou: diabetes meu velho. Açúcar nem pensar. Não gostei da cor do seu pé. Melhor se cuidar. Vamos fazer uns exames.
O açúcar foi trocado por uns comprimidinhos chatos, de sacarina. Na verdade só usava no café. É claro que a rapadura não mais podia nem ver. Ah, mas o doce de leite, esse não dá pra botar sacarina. Já vem doce.
A coisa foi piorando até que um machucadinho de nada no dedo do pé não curava e aumentou o ferimento. Ficou escuro e, na verdade, nem doía mais. O médico mandou procurar recursos. Melhor ir para o Rio, recomendou.
O milho estava espigando. Talvez fosse melhor esperar a colheita, pensava. Mas o modo sério do médico falar lhe impressionara. Achou melhor ir, começar o tratamento e voltar logo. Apesar de não saber bem o que tinha, desconfiava. Iria ao Rio, tudo se resolveria. Depois voltava e colhia o milho, pensou arrumando a velha mala desbotada que andava esquecida.
Foi pra casa da filha. Não era bem isso que queria. Não esqueceu a briga que tivera com o genro, há muitos anos. Embora tenham feito as pazes, sabe como é, genro não é filho. Não havendo outro jeito, lá se foi. Juntou um punhado de notas de cinquenta cruzeiros e ao chegar informou: Trouxe um conto de réis para o tratamento. Vamos ver se dá.
Não falava cruzeiro, centavos, nada. Tudo era em réis. Quando não era “réis”, era “boi”. Sim, tinha a sua moeda particular. Um dia, conversando com o vizinho Tião Macedo sobre o carro novo que o taxista comprara, depois que o homem saiu, ficou resmungando em voz baixa, como era seu costume de ser:  Dez bezerros grandes por um carro que só dá despesa? Pra mim não serve, prefiro meu Inglês velho.
Inglês era o cavalo baio e manso que puxava a charrete entre a rua e a roça. Tinha outros, mas do que mais gostava era o burro Ferro Quente. Bicho bom, não dá trabalho e tem força... Não há dinheiro que pague.
Colocou um conto de réis nas mãos do genro que não aceitou - de jeito nenhum.
Ele era assim. A gente não se entendia, mas honesto era, dizia em algumas ocasiões.
No Rio procurou o médico que já veio indicado lá de Itaperuna. O doutor olhou o pé, franziu a testa e confirmou o diagnóstico: Gangrena. Vamos ter que operar. A notícia trouxe profundo abalo, daí os olhos daquele jeito, meio descaído, quase perdido no infinito e nas rodas das olheiras profundas.
Agora, este hospital. O nome não é dos melhores: Gamboa.
Não, nem sabia se era esse o nome do hospital, só ouviu falar Hospital da Gamboa. Não sabia porque, mas não gostava do lugar. Talvez fosse o nome. Lembrava Camboa, o trecho no leito dos rios, onde as águas remansam, dando a impressão de lago sereno, mas que o cavalo rejeita atravessar. Sombrio esse hospital, dizia. Hospital é um lugar que não é agradável.
Quando o vi pela última vez, foi seu olhar que me chamou a atenção. Quietarrão, quase triste, sentia que a situação não era boa. O coração parecia preguiçoso. Vez por outra uma falta de ar.
Aquela terça-feira parecia como outro dia qualquer. O filho chegou do interior, veio direto da rodoviária. O cumprimento respeitoso era comum, o aperto de mão quase formal e, de novo, o olhar lançado. A não ser este, poucos gestos de afetividade vinham deles, mas a simples presença já era uma reverência. Ninguém se dava o direito a emoções. O relacionamento era quase silencioso.
As frases eram: Bênção. Como o senhor está passando? Precisa de alguma coisa? Quer que compre alguma coisa?Quer que leve o senhor até a varanda?
As respostas, na mesma ordem, eram: Deus te abençoe. Estou bem, mas não melhorei. Não preciso de nada, não. Não precisa comprar nada porque aqui tem o que a gente precisa, que é remédio. Acho que não devo caminhar porque vou operar. Só saio daqui pra ir ao banheiro.
Um silêncio cheio de expressão e depois, olhando meio de lado a janela onde o céu aparecia sereno e profundo, começava: - Como está tua mãe?
O filho respondia no mesmo tom seco: - Vai bem.
Ele continuava: - Veja lá o que ela está precisando. Como está o milho?
A resposta vinha depois que ele terminava: - Vejo sim. O milho está com espiga. Daqui um pouco é preciso colher.
Ele não respondia sobre o assunto que terminava, mas emendava: - Não esquece de vacinar o gado. Não quero aftosa atrapalhando o leite. De novo a resposta vinha em tom tão baixo quanto a recomendação: - Pode deixar, vacino sim.
O olhar quase dispensava o filho que ficou sentado na cama ao lado, que estava estranhamente vazia. Era claro pra todos que o milho era dele a vacina e as responsabilidades, do filho.
Mas não deu tempo de fazer a colheita. O coração, que nunca se permitia o carinho, o beijo e o abraço, não lhe permitiu mais esse milho e levou-o tão silenciosamente quanto viveu.
Deixou vacina para aplicar, roça a colher, filhos, netos, cavalos, bois, vacas, um burro chamado Ferro Quente, a terra que tanto amou e um conto de réis.



Orlando L. Coutinho
Setembro de 2013

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BOM DIA SAUDADE

No meu velho dicionário de inglês procurei a palavra saudade e, entre algumas traduções “nada a ver” para um brasileiro simples como eu, achei uma forma curiosa que, entendida de forma direta seria “doença da casa” no sentido do lugar imaterial onde se vive. Pode ser também lar, no sentido do corpo etéreo onde habitam os pensamentos e os sentimentos. Pode ainda ser um lugar abstrato, que fica lá onde moram os amores, que recebe visitas como a alegria e a inevitável saudade.
E assim tem dias de uma brevidade doída, ou doida, que elas me visita, a alegria e a saudade.
Quando a alegria chega, às vezes sob a forma de netos correndo no quintal com sua cadelinha poodle, ou de filhos dando risada na sala, ou até mesmo de uma fria manhã de sol de inverno, a alma fica intumescida em um sentimento inexplicável onde os olhos brilham e um sorriso perene se instala no canto da boca que nada consegue dizer. Alegria é um sentimento tão híbrido que não sei se posso dizer que sou alegre ou que estou alegre. Nada me diz que amanheci com a alegria ou se, simplesmente ela está de visita e pode, a qualquer minuto, que não sei quando será, ir embora sem avisar. Também não sei se deixa algo em seu lugar ou se simplesmente se evapora.
Mas tem dias que vem a saudade. As duas, a alegria e a saudade, com as mesmas formas de chegar, entram sem bater, surgem do nada e inundam a alma sem que se consiga evitar. É, talvez, o mesmo fenômeno do amanhecer: nada as detém. Elas são tão iguais, que fico pensando se não gosto das duas. Podem me chamar de masoquista, mas tem dias que a saudade chega a ser bem vinda. Até porque, ninguém tem saudade do que não gosta. Nunca vi alguém dizer que tivesse saudade da guerra. Não conheço marinheiro que tenha saudade da tempestade, muito menos do atleta que tenha saudade daquele jogo em que seu time tomou uma sova... No meu caso, não tenho saudade dos meus medos de menino. Saudade pressupõe lembranças de um tempo poético, imemorial, de sabor e cheiro, de risos e abraços, de cantos e canções, de som e luzes. Um dia ela veio me visitar sob a forma do andar de um velho empinadinho e metódico que lembrou meu pai. Como numa mágica, surgiram as imagens do dia em que cavalgamos nas estradas empoeiradas de um lugar de minha juventude.
Em outra ocasião ela chegou trazendo as olheiras de uma senhora idosa que passou perto de mim e se transfigurou numa doce lembrança de minha mãe. Quase a chamei pelo nome e meu olhar se perdeu na imensidão da alma.
Uma tarde, era quase fim de dia, ela chegou pelo som de uma música roceira e me trouxe a figura do velho tio pé de valsa e boêmio das madrugadas. Penso ter ouvi sua voz. Quando isso acontece, chego a suspirar: Ah, saudade, não vai embora, fica mais um pouco. E, como um louco, confundo tudo com alegria. Talvez uma alegria do tipo pão de ontem, ou perfume de rosa, que a gente só lembra quando sente, nunca quando quer.
Saudade e alegria, é preciso ter arte na hora de lidar com elas. Como todo sentimento, seja raiva, seja paixão, seja esperança, elas precisam ser dominadas. Se quiserem ficar morando no coração, deve-se cobrar aluguel. Assim, sovinas como são, haja vista a homeopatia de suas presenças, elas se vão e prometem voltar... E voltam, não para fazer morada, mas para trazer a lembrança de que vida é um conjunto tão lindo que só pode ter vindo dos céus, onde a imensidão e o inexplicável, esse casal perfeito, iluminam as razões e mostram como tudo é efêmero, pequeno, instantâneo e deve ser vivido como se bebe um néctar... Com toda a parcimônia.
Hoje, quando abri a janela do meu quarto, as duas entraram montadas nos raios do sol. Abraçadas, não dei bola para uma e só falei com a outra: Bom dia Saudade! Enciumada, a alegria me abraçou e ficamos os três olhando a natureza bela e iluminada. Foi aí que confirmei: são gêmeas.

 Orlando L. Coutinho Florianópolis, 20 de julho de 2012.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

CAFÉ PEQUENO

Em tempos distantes, mas não tão distantes que a gente deles não se lembre, as pessoas tinham um hábito interessante de “mandar lembranças”, umas para as outras.
Era mais ou menos assim: - “Dê lembranças para sua avó”. A gente tinha que dizer: - “ Obrigado”. Geralmente a gente esquecia de “dar as lembranças” e, a bem da verdade, nem sabia o que isto significava.
Na infância, lá pelos sete, oito anos, uma vizinha
pediu para eu entregar um “retrós” de linha, acho que era assim que se falava, à minha mãe, que era costureira de “blusões”, hoje conhecidos como camisas. Disse mais umas coisas e “mandou lembranças”. Saí pelo mundo, saltitando com uma perna só, imitando o Moleque Saci, um personagem da rádio-novela “Jerônimo – O herói do sertão”, perdi o “retrós” e esqueci o recado. Perder a linha não me abalou tanto, apesar da bronca, mas como lembrar a mensagem? Fiquei devendo o recado, até que um outro dia, meu pai chegou da rua e, distraído, comentou com ela: Sabe quem” mandou lembranças”? Bastou isso e eu lembrei o recado de que me fizeram portador, gritei a lembrança, mas minha mãe queria mesmo era a linha para fazer suas camisas, ou blusões.
Tinha outras frases curiosas que se falava e que me faziam matutar. Quando a janta não caía bem, geralmente por se ter comido “quase um quilo de torresmo” durante o dia, a gente ficava “arrotando choco”. Quando alguém pedia a um domador de “cavalo bravo” que montasse um potro que já era manso, o cavaleiro garboso dizia logo: isso é “café pequeno”. Menino pálido, dizia-se que estava “amarelo”, e se fosse magrinho como era o meu caso, certamente estava com verminose e, dele se dizia que estava “cheio de bicha”. Meio cruel, mas a gente ria com isso.
Hoje, essas e outras frases e situações me dizem que, coisa boa da vida são as lembranças boas, daquelas que faz a gente sonhar e desejar que um dia, uma situação, ou um momento gostoso que daqueles que se viveu, aconteça de novo.
Melhor que lembranças, só mesmo o sonho, essa outra coisa linda que Deus inventou! A gente poder sonhar é genial! Sonhar é bom demais.
Sonhos com as madrugadas em que se era acordado pelo galo lá de casa, é comum em mim. Meu pai dizia que os pintinhos machos que nascessem na noite de natal, se tornariam galos cantores. Galo cantor é aquele que tem o canto longo, dizia ele soberano em seu conhecimento. Nunca pesquisei sobre isso, não sei se procede a coisa, mas deixo essa lenda enfeitar meus sonhos. Neles, todos os galos são cantores e cantam lindamente e longamente depois de baterem asas até acordarem o dia...
Às vezes sonho também com manhãs de inverno, pés descalços sobre o pasto molhado pelo sereno, a conversaria alegre com meus primos e a gente tangendo as vacas que andam lentamente rumo à ordenha... Os mugidos dos bezerros de voz grossa... E minhas irmãs com medo deles, chamando o irmão menor que hoje é o maior de todos.
Outra vez, sonhei que estava sentado ao pé da escada da casa da minha avó. Os tios conversando na varanda da casa, a galinhada solta no terreiro, o quero-quero lá ao longe com sua voz campeira e a molecada rindo, como sempre, à espera da hora do almoço. Tudo tão nítido que, depois que acordei, fiquei tentando dormir de novo, só para ver se o sonho continuava. Não continuou, mas acordei feliz.
Lembranças e sonhos, são coisas maravilhosas da vida, certamente mistérios de Deus, o criativo Criador, incrível em fazer momentos para a gente ser feliz.
Também, para quem inventou as manhãs de outono, inventar lembranças e sonhos é café pequeno.

By Orlando L. Coutinho,
Dezembro de 2011
(foto: Su Coutinho)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

NOVO ANO FELIZ!

Passada a primeira semana do novo ano podemos contar os votos de feliz ano novo recebidos. A gente perde as contas, mas o exercício me custa uma reflexão sobre essa forma ocidental de saudação desta época do ano em que também podemos separar o que foram os votos sinceros, de palavras pensadas, dos

que foram a mera formalidade social.
Não custa perguntar: A quem cabe a responsabilidade do feliz ano novo na vida das pessoas? Será dos que fazem os votos e escrevem mensagens (se for isso, o que pode fazer uma pessoa lá de Brasília para que seu amigo de Florianópolis seja feliz... ou vice-versa?) ou de quem recebe ou votos?
Se a gente ficar com a segunda opção, o que logo predomina, também logo sente o peso da “auto responsabilização”: Será que para ter um ano feliz vou ter que depender dos meus métodos próprios? Será que terei que enfeitá-los com os votos sinceros dessa gente que se envolve comigo, seja por amor ou por singela amizade, que é a mesma coisa? Não há quem possa fazer isso por mim, embora pai, mãe, irmãos e amigos tentem?
Sei não, mas acho que para ter um “feliz ano novo” a gente tem que colaborar, minimamente para não atrapalhar. Mas quais seriam os verdadeiros causadores do meu provável estado de felicidade? De que forma transformaria os votos, que os amigos fizeram para que eu cumprisse, em realização?
Seguindo a tendência, mas sem aderir à tese da autoajuda, aí vai uma pequena ajuda para ser lida diante do espelho, buscando ter ano novo feliz... como nos desejam:
Primeiro: Declaro que não pronunciarei para qualquer pessoa, seja um louco do trânsito que me ameaça ou meu vizinho de porta que quase não vejo, parente ou inimigo velado do tipo flamenguista ou torcedor do Avaí, palavras que não sejam de elogio, ao seu jeito, ao seu sorriso, à sua forma de olhar, aos seus cabelos brancos ou naturais e nem direi palavras que, seguramente, não enfeitem seu ego ou sua percepção da vida. Para isso, deverei envolver-me mais com gente e menos com cães e gatos de estimação e deverei ser menos fã dos personagens de novela e suas violências tele-urbanas, dedicando tempo real aos personagens reais de minha vida.
Segundo: Declaro que não falarei de uma pessoa para outra, ainda que provocado ou perguntado, nada que não a eleve, a construa ou a faça surpresa de alegria quando souber o que falei. Aterrarei o pântano fétido das bocas que fofocam e denigrem. Plantarei rosas nos caminhos dos que me provocarem a emitir opinião contrária à forma de ver de meus contatos do orkut, do face-book ou do twitter, do condomínio ou da faculdade, do tempo passado ou do porvir. Emudecerei, quando entender que é bom ficar quieto!
Terceiro: Declaro que abraçarei mais. Indiscriminadamente. Mendigos, desvalidos, indigentes e gente do meu bairro e da minha rua, todos os que me despertarem o sentimento gostoso de que estou diante de um ser humano, a mais perfeita criação de Deus. Abraçarei o amigo, o irmão, o filho, o neto e as imagens que insistirem a aparecer em minha mente, lembrando pessoas que já não vejo, mas que amei profundamente.
Quarto: Declaro que caminharei mais. Pelas ruas, becos, avenidas e ladeiras desta beleza de cidade onde vivo. Andarei como um bobo ou como um sábio, até que, de cansado e com a alma cheia das imagens belas e surpreendentes sinta-me satisfeito a ponto de lembrar com gratidão da saúde e da perfeição que me foram dadas pelo Autor da Vida. Andarei de dia e de noite e se acordado for, caminharei na madrugada, de preferência quando a lua cheia estiver se esvaziando em luzes sobre o mar de Jurerê.
Quuinto: Declaro que dedicarei tempo, durante todos os dias que me restam viver, para contemplar as flores do outono e ouvir os pássaros livres que cantam nas manhãs de verão e, durante as noites, separarei horas especiais para falar às estrelas e ouvir o som dos seres minúsculos que conseguem ser ouvidos cantando na orquestra dos céus.
Sexto: Declaro que medirei meus gestos e atos para não ferir pessoas com minha soberba, nem me esquecer um só dia que, pobre nas encostas do Bambuí, nasci nu e não tenho nenhuma razão para me sentir superior, ou rico, ou mais importante que meu velho avô, analfabeto e de dedos entortados pelas pedras de cal que quebrava para sobre elas viver.
Sétimo: Declaro que cantarei canções e poesias. Assobiarei, gemerei, tocarei violão, terei música no coração... de alegria, de louvor, de emoção, de saudades e de esperança. Música para dançar, para ouvir e para ninar. Música do Milton e da Gadú, do Gil e do Jeneci. Comporei minhas próprias canções de amor e de gratidão e serei intérprete de mim mesmo, pois motivo para isso tenho. Cantarei poesias, filosofia, romances “água com açúcar”, lerei os salmos de Daví e o sermão do monte, lerei fotos, epitáfios, bilhetes e os versos de minha juventude que o tempo não levou, mas deixou impressas em minha alma de poeta.
Oitavo: Declaro que darei gargalhadas e, sem papas na língua, rirei dos meus furos, dos meus tempos de menino e das minhas esperanças. Terei o riso como remédio, como bálsamo, como forma de esquecer o que tive que engolir e não queria. Serei um velho alegre de sorriso nos lábios e olhos semi-serrados.
Nono: Daclaro que farei mais doações. Doarei roupas e sapatos, doarei dinheiro para os que precisarem dele, doarei trabalho, envolvimento, doarei amor, doarei paixão para os insensíveis que dela forem podados, para os aleijados e desvalidos de qualquer sentimento, por isso corruptos, maledicentes e miseráveis candidatos aos quintos dos infernos. Doarei lágrimas pelos injustiçados quando ver, justamente na primeira hora do dia, as notícias de tragédia em que pessoas perdem tudo, e quando ver jovens irresponsáveis se matando e mães chorando. Doarei angústia quando as imagens mostrarem países ricos invadindo a liberdade e matando inocentes.
É claro que estas declarações não me garantem nada, por isso declaro que ouvirei os amigos e os que quiserem sugerir algo mais que eu possa fazer para ter um feliz ano novo e acrescentarei, de bom grado, a este texto simples urdido na madrugada insone, depois que as lágrimas secaram por uma angústia que eu não tinha e nem queria ter, e chamarei a essa sugestão o décimo artigo de meus mandamentos para ter um Ano Novo Feliz, todos os anos, afinal não são esses os votos que me foram feitos...?

terça-feira, 4 de outubro de 2011

FELICIDADE É PLURAL


A felicidade tem personalidade forte. Uns dizem que não sabe beijar, simplesmente roça os lábios de quem a percebe, tal sua sutileza. Para outros, é breve e finita como o vento de uma tarde de outono, jamais parece uma longa tempestade. Já para outros é como um cometa... surge, passa e a gente só ouve falar. Quando muito, imaginamos que vimos, ou éramos.

Suspeito que felicidade pareça realmente com um cometa. Tem cabeça brilhante, luz em todo o tempo e uma calda igual ao de um vestido de uma noiva dos céus. Suspeito ainda que tenha mistérios, do tipo não poder ser percebida senão por quem tem olhos de paz, coração de alegria e uma visão ampla do próprio viver... por alguém.

Ela, a felicidade, nunca foi vista pela frente, por trás, nem por cima, somente pelos lados da vida. Embora exista e seja o sonho dos seres viventes humanos, não é privilégio de todos perceberem-na. Alguns ficam diante dela e não sabem. São insensíveis demais para perceberem que estão felizes. Não têm coração alegre nem olhos de paixão.

Outros ouvem dela falar, mas não a reconhecem com clareza, somente depois que se foi. São os que estão correndo atrás dela. E ela, fugaz e ligeira como uma gargalhada, desaparece a cada vez que pensam alcançá-la, como a brincar de borboleta azul numa manhã de primavera. Esses são os que a chamam de dinheiro, bens, tilintar de copos, luzes ou qualquer outro nome que não seja o nome próprio dela. Nunca a terão porque sequer lhe sabem direito o verdadeiro nome.

Mas tem aqueles que descobrem a alegria de andar de mãos dadas e acordar cedo para ouvir os pássaros, caminham suaves para sentir o dia e são capazes de parar e louvar o Deus que deu cor à rosa, som às fontes e luz ao sorriso da criança. Esses, a reconhecerão, dirão seu nome e verão o cometa passar. Cavalgarão em sua mágica calda e nunca perderão o equilíbrio ou terão medo porque estarão de mãos dadas. Juntos, há equilíbrio. Juntos a chamarão pelo nome próprio todos os dias da vida.
Talvez esteja aí o segredo e a revelação do mistério. Mãos dadas. Ninguém consegue, sozinho, dizer que viu, sentiu ou abraçou a felicidade, porque ela sempre no está no vácuo onde há mãos entrelaçadas, talvez em meio aos dedos ou aos corpos amantes e aos lábios que professam juntos a fé no amor. Mas vê-la mesmo só com olhos de paz, coração de alegria e uma visão ampla do próprio viver... por alguém.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

PLANTAÇÃO DE SONHOS

Notei, pelo brilho do olhar, uma imensa satisfação ao receber a foto antiga da igrejinha de sua meninice. Naquela manhã de verão, minha mãe de quase 86 anos balbuciou algo que não entendi e que decifrei como sendo uma conversa consigo mesma e, logo, mergulhou em reminiscências daqueles tempos, quando ouviu os primeiros ensinamentos bíblicos de sua longa lembrança. Começou a falar sobre sua história na Igreja Presbiteriana. Contou sobre a avó que se convertera por intermédio de uma congregação plantada na roça, num lugarejo escondido entre morros, no caminho entre Itaperuna e Bom Jesus do Itabapoana, curiosamente chamado Sacramento e distante quase quatrocentos quilômetros do Rio de Janeiro. Como conheço a região, fiquei imaginando como teria sido há 80 anos passados e me perguntei: quem foi o louco que sonhou em plantar uma igrejinha naquele lugar distante de tudo e de todos? Quem pregou lá, no primeiro culto?


Visivelmente vasculhando a memória, ela me falou ainda sobre os hinos que ouvia naqueles domingos, levada pela avó e como “Chuvas de Bênçãos”, “Foi na Cruz” e tantos outros ficaram em sua mente a ponto de, anos depois, rebrotarem vivas quando, já morando numa casinha simples em Mesquita, aí já mais próximo da então Capital da República, um velho presbítero se aproximou do jovem casal e os conduziu definitivamente a Cristo. Lembrei então daquele pequeno tempo que eu também conheci e ali fui menino ligeiro a correr antes dos cultos numa algazarra que incomodava meus pais. Era, só para mim, um imenso templo branco, fincado numa rua no pé da serra e, novamente, me veio a pergunta: quem foi o louco que imaginou plantar uma igreja branca num lugar tão escondido? Quem regeu lá o primeiro coral cujas canções até hoje me visitam a lembrança, tal como acontece com minha mãe?

Ela continuou falando de sua história, que é também a minha. Lembramos de nossa casa humilde recebendo irmãos simples, pastores de saudosa memória. Um deles, Rev. Agenor Mafra, tem seu nome escrito numa das portas da Igreja Central de Florianópolis, hoje cidade de minha adoção. Imagina que linda coincidência!

Os anos se passaram, a vida seguiu seu rumo, eu e meus irmãos crescemos. Um dia deixei o Rio de Janeiro rumo a Santa Catarina com as filhas pequenas no colo. A condição que tínhamos para aceitar o desafio da uma mudança tão radical era que houvesse lá, para onde iríamos, uma Igreja Presbiteriana.

Não deu outra. Nos idos de 1975, numa tarde suave de janeiro, encontrei na pequena Xanxerê, a igrejinha toda de madeira, naquela altura plantada ali havia quase 70 anos. E eu me perguntei, morando lá, numa de suas noites geladas de inverno: quem foi o louco que imaginou plantar uma igreja azul nestas terras longínquas? Quem fez aqui a primeira oração?

Parece mesmo loucura, mas não é. É paixão. Parece desatino, mas é sonho. Parece impossível, mas é plano de quem mais entende de sonhos. Ou será que Deus fez a primavera sem primeiro sonhá-la! Sonhos moram em corações humanos, mas nascem no coração do Criador. Igrejas são sonhos de Deus, plantados no coração do homem para que outro homem, ou mulher, O reconheçam ao ouvirem cantar... Chuvas de bênçãos teremos, Quero o Salvador comigo, Bem de manhã embora o céu sereno... e outros convites maravilhosos.

Só sei que tenho uma dívida imensa com a amada IPB que sonhei pagar. No entanto, por mais que trabalhe para vê-la crescer, ainda assim serei um eterno devedor para com a memória dos loucos sonhadores que fizeram ecoar pelas encostas do Sacramento as canções do “Salmos e Hinos” que aqueceram o coração de minha mãe. Por mais que eu faça, não pagarei a dívida para com os homens que viajaram a cavalo e plantaram a Igreja que me apoiou com o amor dos irmãos, na minha juventude aventureira, na Xanxerê feita de casas de madeira e gente sincera.

Jamais saudarei minha dívida para com os irmãos que evangelizaram minha avó, amaram meus pais, me foram orientadores da mocidade, ensinaram minhas filhas na Escola Dominical da amada Igreja de Porto Alegre ou que, ainda hoje, ensinam aos meus netos as histórias de Zaqueu e Jacó tanto lá como aqui, em Florianópolis.

Nunca pagarei as visitas de Agenor Mafra quando eu era menino e meus pais jovens na fé. Nunca pagarei os conselhos de Cleantho Siqueira ou de Antônio Elias, a menos que honre suas memórias e contribua com minha loucura real para plantar igrejas nos mais distantes pontos de meu país. Como pagar a amizade de Adão Evilásio, Célio Duarte e Renato Gaebler? São homens que, através dessas igrejas influenciaram minha vida e, acho que sem imaginar, influenciaram gerações de minha família.

Sei que meu trabalho é pequeno porque não sei cantar, não sei pregar e nem tenho o coração ensandecido dos que choram com os que choram, mas, ainda que fraco no meu labor, quero ter a loucura santa de poder contribuir para que, brancas ou azuis, de madeira ou de tijolos, no centro ou nos escondidos das cidades, surjam elas, as igrejas presbiterianas, plantadas com sonhos em Laguna, Araranguá, Florianópolis ou Antonio Carlos, nos morros ou nos vales, nas serras, nas praias ou em qualquer lugar longínquo desta terra que me abriga e, quem sabe, me terá para sempre.

Orlando L. Coutinho
2010 - Local de reunião da IP Trindade
Presbítero da IP Trindade, em Florianópolis-SC

MEUS PRIMEIROS SESSENTA ANOS

Meus primeiros 60 anos foram ótimos, pra não dizer excelentes. Não posso me queixar. Como disse Neruda, "confesso que vivi". Ficaram algumas coisinhas pequenas que adoraria ter feito, mas que não deu tempo. Por exemplo, gostaria de já ter andado pelo caminho de Damasco, visitado o monte Hermom, aquele do Salmo 133, e ter gravado em vídeo momentos de meu primeiro encontro com cada uma das filhas que nos nasceram. Aquela hora, ali, quando elas chegaram aos meus braços pela vez primeira.
Podia ter gravado também, em algum lugar do mundo, o momento único e doce do primeiro olhar de amor, que se evaporou na bruma dos anos. Não seria mal se o tivesse repetido incontáveis vezes.
Mas o que me atrai mesmo, não é o passado. São os próximos 60 anos. Tenho todas as razões para achar que vou aos 120 anos.
Minha avó, que tinha o meu biótipo, pernas finas, era magra e esperta, viveu 99 ou 100 anos. Pairava uma dúvida a respeito disso porque a memória não coincidia com os dados guardados pela parentalha. Havia uma dúvida sobre se ela nascera no ano anterior ou posterior ao da virada do século XIX. Imagina, e ela, que nunca comeu um só produto industrializado, a não ser remédio e no final da vida, não tinha problema de colesterol, açúcar, pressão alta, essas coisas de mundo moderno. Viveu saudável.
Por isso meu pensamento é o seguinte: Tenho a meu favor a genética, ou seja, chego fácil aos 90. Somo o fato de a tecnologia permitir a gente ver tudo antes que aconteça, o que permite cura, mais 15 anos. Tem a coisa dos novos medicamentos, célula tronco, chá verde, vermelho e até linhaça dourada, e o fato de quem vive alegre, vive mais. Some mais 5 anos porque até canto de manhã cedo, dou algumas risadas e estou aprendendo a gargalhar. Tem mais aquele princípio bíblico que diz que se o indivíduo for bom filho, ser-lhe-ão acrescentados muitos anos sobre a terra. É o quinto mandamento. Sou bom filho, cuidadoso, amigo, tenho certeza que sou. Some mais 10 anos. Deu? 120? Então ta.
E os planos? Tem que ter sonhos pra viver muito e isso eu tenho.
Pretendo conhecer a Terra Santa, abraçar muito os netos, plantar ipê amarelo de montão, cultivar orquídeas, ouvir muita música, compor poesias, escrever mais um livro... Se me for dado muito anos ainda, vou ensinar meus pensamentos a voarem, mais longe e mais coloridos do que já voam. Quero colecionar amanheceres com família, almoços com comida feita por mim mesmo, do tipo churrasco com pão-de-alho, arroz carreteiro feito com amor e sobra do dia anterior e pudim de leite feito pela mulher amada. Quero desfrutar de noites de cantoria na casa de praia, de jogos de mesa com os netos em idade desigual e observar com o canto do olho a igualdade dos sorrisos feitos de felicidade, chá-preto e torradas nas noites de inverno. Vou continuar abraçando... Irmãos, amigos, estranhos na rua e crianças de colo.
Quero caminhar na praia até que os passos fiquem lentos. Ouvir o som das ondas e sentir a carícia do vento. Quero deixar bailar o cérebro com leveza nas manhãs de primavera, ouvindo o canário, contemplando o hibisco e remexendo nas lembranças e nas fotos, nos gravetos e na terra sob a roseira ensandecida diante do sol a brotar botões e cores.
Vou distribuir cargos e missões pela vida. Às filhas darei a missão de lembrarem só das coisas boas. Jamais criticarão a sogra, gritarão com os meninos ou dirão que a vida é pequena. Aos meninos da família, darei o cargo de suportadores dos pais e dos avós. Farão musculação, muita ginástica, incluindo a facial, para mostrarem no rosto um ar doce de quem aprendeu a amar por serem amados. Aos que forem ficando velhos distribuirei favores e azáleas. Ficarão encarregados de plantar flores, orquídeas, gerânios e crisântemos. Tudo amarelo e vivo, cheiroso e limpo, plantado sob a sombra de outras árvores dessa vida.
Nunca! Que palavra difícil de se concretizar, mas nunca hei de dar força para a tristeza me bisbilhotar. Embora saiba que ela é intrometida e acompanha as surpresas indesejadas, não deixarei que ela seja a dona da vida, aquela que dá a última palavra e desengraça a pessoa.
Esse cargo, o da última palavra triste, muito contra-gosto darei ao pôr-do-sol, pois um dia, lá um certo dia a gente tem que descansar.

Orlando Lima Coutinho
Setembro de 2009