sábado, 12 de outubro de 2013

Um Conto de Réis

O olhar mortiço não era sua característica. Já fora viçoso, vigoroso e forte. Ânimo nunca lhe faltara. O início da vida pobre nos anos de Wenceslau Brás, como sempre se referia ao Presidente dos anos de juventude, forjaram sua personalidade forte e lutadora. Incrível como sabia de coisas dessa vida, mesmo sem conhecer uma letra do alfabeto.
As guerras geram efeitos que repercutem em mais de uma geração. No seu caso foram duas e cada uma delas o atingiu, em cheio, e deixou sequelas irreparáveis. A primeira, do início do século, legou-lhe o analfabetismo. Desde menino, depois jovem e sendo o filho mais velho, tinha que trabalhar muito para não morrer mendigando. Seu irmão mais novo, sempre o caçula, tivera melhor sorte e conseguira estudar. Quando veio a segunda, em nada diferente, transformou o país em terra de ninguém e as consequências avançaram pelo interior com maior dureza. Os jovens foram mandados para a Itália. Ficaram as mulheres, os arrimos de família, os espertos e os velhos. Era um tempo estranho, esse de guerra. Bastava um fazendeiro aparentar melhora e as ameaças vinham. Muitos foram assassinados porque não queriam vender barato suas as terras. Com medo os sobreviventes vendiam suas propriedades  e tudo que contivesse a quem aparecesse, ou era assim, ou seria a viúva a fazer a venda.
Ele se cuidava. Era corajoso, trabalhava na Caeira do Badeco, num canto do mundo paradoxalmente chamado de Sacramento. Extraía calcário e o partia em pedras, colocava no forno à lenha e queimava dois dias e duas noites sem parar e sem dormir, num calor escaldante, enquanto seus dedos feridos adormeciam. Quando não estava queimando cal, estava na roça de café. Dava algum dinheiro.
O bom Badeco era sujeito trabalhador, cheio de vida. Pagava certo e não atrasava. Pois não é que dois conhecidos matadores tiveram a ousadia de propor comprar-lhe a fazenda e os negócios? Era o sinal que preocupava. Badeco não vendeu e não acreditou que estivesse tratando com gente daquela laia, embora os avisos.  Pois foi morto quando voltava pra casa, ao fim de um dia de trabalho, de tocaia, sem que houvesse dúvidas sobre quem seriam os autores. Com a morte de Badeco, acabou a Caeira, acabou tudo. Cal era trabalho pesado, mas era trabalho, pelo menos havia algum. Agora tudo se acabara.
Ainda bem que tinha juntado um dinheirinho, uns poucos Contos de Réis. Sabia trabalhar e não tinha medo de cara-feia. Alguns vizinhos ficaram com mais medo ainda e puseram seus sítios à venda. O preço, por causa do medo, era barato.  Foi lá e comprou o sítio do Poço D’Antas. Terra boa, água, pasto...
Deu sorte. Os assassinos do Badeco foram presos pelo Tenente Coaraci, que veio da capital para isso, e foram levados para Niterói de onde nunca mais voltaram. De certa forma havia alguma paz na roça.
Ali começou tudo, lembra enquanto a enfermeira aplica uma injeção. Logo comprou um gadinho, alguns leitões, negocia daqui, negocia dali e foi tocando a vida. Tudo que ganhava guardava. Trabalhava muito, como sempre, já estava acostumado à luta.
O café não dava mais nada. Desde que começou o tal Estado Novo já se via pra onde iam as coisas. Muita gente arrancando pé de café e plantando capim. Boi era a nova ordem. Vem o Dutra, tempos de esperança, mas a coisa não muda muito.  Aliás, esperança mesmo só se o Getúlio voltasse. Esse era fazendeiro, sabia da luta e resolvia. Dutra não. Era tão nulo que a brincadeira dos meninos da escola era apresentar uma folha de caderno em branco e dizer, meio sem saber o que diziam: Está vendo aqui? São os decretos do Dutra.
E não é que o Getúlio voltou? A esperança veio com ele. Mas tinha também quem não gostasse. Gente ignorante. Falavam que era o grande responsável pela derrocada do café. Não sabiam de nada. Desde o Wenceslau que a coisa vinha mal. Os gringos é que diziam o preço para comprar barato.
Pois é, acabaram matando o Getúlio.
Ninguém o convencia de que fora suicídio. Ficava quieto pra não entrar em discussão. Discussão não dá dinheiro, dizia, com seu jeito grave de falar. Tem mais é que trabalhar. E não trabalhe pra ver.
Juntou mais um dinheiro vendendo leite, queijo, milho, porco e tudo que desse alguns réis. Até começou a emprestar para bom pagador. Não sabia escrever, mas era bom de conta de cabeça.
Juscelino era melhor que Getúlio. Movimentou o Brasil. O dinheiro começou a aumentar. Já tinha quase um conto de réis, cuidadosamente guardados debaixo do colchão.
O filho mais novo já podia estudar. Dizia que os outros não puderam porque não havia recurso, mas esse tinha jeito bom. Foi aí que comprou uma casa na rua. A rua era a mania de se dizer quando se saía da roça para ir à cidade. Foi pra lá com a mulher e o filho. Os outros seis já eram casados, se viravam.
Já fazia tempo que andava sentindo umas tonturas. Tinha muita sede. Foi ao médico. Dr. Raul examinou, bateu de leve no braço do amigo e decretou: diabetes meu velho. Açúcar nem pensar. Não gostei da cor do seu pé. Melhor se cuidar. Vamos fazer uns exames.
O açúcar foi trocado por uns comprimidinhos chatos, de sacarina. Na verdade só usava no café. É claro que a rapadura não mais podia nem ver. Ah, mas o doce de leite, esse não dá pra botar sacarina. Já vem doce.
A coisa foi piorando até que um machucadinho de nada no dedo do pé não curava e aumentou o ferimento. Ficou escuro e, na verdade, nem doía mais. O médico mandou procurar recursos. Melhor ir para o Rio, recomendou.
O milho estava espigando. Talvez fosse melhor esperar a colheita, pensava. Mas o modo sério do médico falar lhe impressionara. Achou melhor ir, começar o tratamento e voltar logo. Apesar de não saber bem o que tinha, desconfiava. Iria ao Rio, tudo se resolveria. Depois voltava e colhia o milho, pensou arrumando a velha mala desbotada que andava esquecida.
Foi pra casa da filha. Não era bem isso que queria. Não esqueceu a briga que tivera com o genro, há muitos anos. Embora tenham feito as pazes, sabe como é, genro não é filho. Não havendo outro jeito, lá se foi. Juntou um punhado de notas de cinquenta cruzeiros e ao chegar informou: Trouxe um conto de réis para o tratamento. Vamos ver se dá.
Não falava cruzeiro, centavos, nada. Tudo era em réis. Quando não era “réis”, era “boi”. Sim, tinha a sua moeda particular. Um dia, conversando com o vizinho Tião Macedo sobre o carro novo que o taxista comprara, depois que o homem saiu, ficou resmungando em voz baixa, como era seu costume de ser:  Dez bezerros grandes por um carro que só dá despesa? Pra mim não serve, prefiro meu Inglês velho.
Inglês era o cavalo baio e manso que puxava a charrete entre a rua e a roça. Tinha outros, mas do que mais gostava era o burro Ferro Quente. Bicho bom, não dá trabalho e tem força... Não há dinheiro que pague.
Colocou um conto de réis nas mãos do genro que não aceitou - de jeito nenhum.
Ele era assim. A gente não se entendia, mas honesto era, dizia em algumas ocasiões.
No Rio procurou o médico que já veio indicado lá de Itaperuna. O doutor olhou o pé, franziu a testa e confirmou o diagnóstico: Gangrena. Vamos ter que operar. A notícia trouxe profundo abalo, daí os olhos daquele jeito, meio descaído, quase perdido no infinito e nas rodas das olheiras profundas.
Agora, este hospital. O nome não é dos melhores: Gamboa.
Não, nem sabia se era esse o nome do hospital, só ouviu falar Hospital da Gamboa. Não sabia porque, mas não gostava do lugar. Talvez fosse o nome. Lembrava Camboa, o trecho no leito dos rios, onde as águas remansam, dando a impressão de lago sereno, mas que o cavalo rejeita atravessar. Sombrio esse hospital, dizia. Hospital é um lugar que não é agradável.
Quando o vi pela última vez, foi seu olhar que me chamou a atenção. Quietarrão, quase triste, sentia que a situação não era boa. O coração parecia preguiçoso. Vez por outra uma falta de ar.
Aquela terça-feira parecia como outro dia qualquer. O filho chegou do interior, veio direto da rodoviária. O cumprimento respeitoso era comum, o aperto de mão quase formal e, de novo, o olhar lançado. A não ser este, poucos gestos de afetividade vinham deles, mas a simples presença já era uma reverência. Ninguém se dava o direito a emoções. O relacionamento era quase silencioso.
As frases eram: Bênção. Como o senhor está passando? Precisa de alguma coisa? Quer que compre alguma coisa?Quer que leve o senhor até a varanda?
As respostas, na mesma ordem, eram: Deus te abençoe. Estou bem, mas não melhorei. Não preciso de nada, não. Não precisa comprar nada porque aqui tem o que a gente precisa, que é remédio. Acho que não devo caminhar porque vou operar. Só saio daqui pra ir ao banheiro.
Um silêncio cheio de expressão e depois, olhando meio de lado a janela onde o céu aparecia sereno e profundo, começava: - Como está tua mãe?
O filho respondia no mesmo tom seco: - Vai bem.
Ele continuava: - Veja lá o que ela está precisando. Como está o milho?
A resposta vinha depois que ele terminava: - Vejo sim. O milho está com espiga. Bonito de ver. Daqui um pouco é preciso colher.
Ele não respondia sobre o assunto que terminava, mas emendava outro: - Não esquece de vacinar o gado. Não quero aftosa atrapalhando o leite. De novo a resposta vinha em tom tão baixo quanto a recomendação: - Pode deixar, vacino sim.
O olhar quase dispensava o filho que ficou sentado na cama ao lado, que estava,  estranhamente, vazia e com um lençol branco. Era claro pra todos que o milho era dele a vacina e as responsabilidades, do filho.
Alguma dor passou pelo peito. Esfregou e ficou calado. O filho, para não incomodar, foi lá fora, fumar.
A enfermeira, atenta, veio... Segurou-lhe a mão forte e foi afrouxando. Não deu tempo de fazer a colheita. O coração, de quem nunca se permitia o carinho, o beijo e o abraço, não lhe permitiu mais esse milho e levou-o tão silenciosamente quanto viveu.
Deixou vacina para aplicar, roça a colher, filhos, netos, cavalos, bois, vacas, um burro chamado Ferro Quente, a terra que tanto amou, um conto de réis e filho, tremendo, balbuciando: Vacino sim, pode deixar... Pode deixar...



Orlando L. Coutinho
Setembro de 2013

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